Poema

Criado na Linha de Sintra, foi aqui que esta criatura suburbana encontrou os primeiros versos do seu caderno. As palavras são a sua vida e foi, por isso, que se mandou de cabeça para a Publicidade, trabalhando como copywriter desde os 20. Pelo meio, a poesia nunca ficou para trás, apesar de não ter coragem para se chegar à frente e cuspir o que vai lá dentro.
Cá fora, está a sua primeira obra, A Balada do Bairro.

Nascido em Santarém, foi a música que empurrou Alberto para a arte. DJ desde os 14, fez-se à pista e ganhou o gosto pela Comunicação. Passou por várias agências de Publicidade, até fundar o premiado Estúdio Núcleo Áudio. O interesse pela Publicidade e Direção de Arte nunca se perdeu e tem vindo a dedicar-se a essa área desde 2020.

1755
por João Santos x Alberto Vieira

Quem é essa?

Quem é essa que se faz ver?

Na Calçada que balança a intimidade em desfile de egos,

Estética dança sem salão – e nos deixa cegos.

Qual cânone,

                        Qual Platão.

 

Ela arrepele a pele e rasga o traje como uma cascavel.

Revela-se ultraje provocando mais um terramoto.

            Mas é só papel.

E quando desce as escadas de São Jorge,

Zarpa vadia, das águas – sem dono - ela foge.

 

Tu não és ninguém.

Sais e vais com todos, nem sabes de quem és mãe.

Neolítica, menina e moça - chamam-te nomes.

Mas eu quero-te assim, mefítica.

Dança, cínica, e escora-te na minha boca

 

Arrastas os pés.

Arrastas mais um pouco e as grilhetas fazem dançar a galé.

            Também ouves o barambé?

É. É só mais uma caravela ultramarina ou uma carruagem que vem de Sintra.

Ou de lés-a-lés.

É só a nossa cina.

Numa linha que se assina o teu sotaque calé.

            Estares viva é uma sorte.

Por isso, agarra-lhes a mão e adivinha-lhes a morte.

Esse perfume que se conhece encerra-se em ciúme

E faz de nós seus fiéis.

Percorro o teu corpo, dos lábios à Almirante Reis.

 

Só te querem bem. Vestida.

Para mim, ficas melhor assim. Despida.

 

2021, João Almeida Santos

Ouve aqui o poema

Lisboa mestiça que há muito deixou de ser a cidade branca e tornou-se num mundo, grande e pequeno
“(…) Hoje seus ramos correm por todo lado E fazem pontes(…)”
Eu cri em ti e vi, Lisboa, dares-me o que nunca ninguém deu - um espaço onde pudesse ser puro, onde ser crioulo não fosse duro.