Poema

Bob Da Rage Sense é um dos maiores e mais sonantes nomes do Hip Hop nacional e lusófono, grande referência para várias gerações, tendo conquistado o público com as suas rimas virtuosas e beats poderosos.

Robert Montargil da Silva Sebastião nasceu em Luanda em 1982. O gosto pela música nasce através do seu pai que era um grande admirador do lendário Bob Marley, P. Mackintosh e os The Wailers. Foi a partir desta influência do pai e dos seus ídolos de juventude Rage Against The Machine e Common Sense, que nasceu o seu nome artístico - Bob Da Rage Sense.

Com o primeiro album lançado em 2002, conta agora já com seis álbuns editados, actuou em vários festivais, encheu salas importantes dentro e fora do país e trabalhou com grandes nomes da música.

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Vontade intrínseca mas proibida.
por BOB DA RAGE SENSE

Esses olhares e sorrisos são também formas de comunicação mas retraem-se nas esquinas do olá e do adeus, nessa Lisboa mestiça que há muito deixou de ser a cidade branca e tornou-se num mundo, grande e pequeno, um mundo cheio de cores e luzes que iluminam estrelas que não brilham. 

O clima é ameno mas as atitudes são frias, nas ruelas e becos deambulam mentes futuristas que arrastam ideias revolucionárias e trancam o passado em criptas, avenidas cheias e vazias substituem invasões por verdadeiras conquistas, Avenida Almirante Reis, o epicentro da diversidade e representatividade, é lá onde encontro o sinal de stop no salão do Papy, a paragem obrigatória para os meus dreadlocks, deparo-me com Zucas, Tugas, mangopes e Guineenses a debaterem sobre futebol e política , cada um na sua língua, mas não apresenta e nem representa condição sobre a expressão porque a necessidade é natural, é lá onde a gastronomia fala mas poucos conseguem ouvir, nessa Lisboa que é mestiça, nessa Lisboa que é a extensão das mais diferentes culturas geográficas e gráficas fora do seu habitat natural, onde o comércio triangular virou comércio retangular nos corredores do centro comercial da Mouraria. 

A China é nos anjos e a Índia é no Intendente, O Rossio é quente e aconchegante como o ventre da terra mãe, atrai turistas vindos dos mais longínquos espaços terrestres, aterram no aeroporto da Portela curiosos para saber como é que as mais variadas línguas comunicam e vivem em concílio perfeito, curiosos para ouvir a linguagem imperceptível aos ouvidos do ex colono, mas que existe, resiste e persiste na mente, corda vocal e em todo o coração crioulo.

“(…) Hoje seus ramos correm por todo lado E fazem pontes(…)”
Esse perfume que se conhece encerra-se em ciúme E faz de nós seus fiéis. Percorro o teu corpo, dos lábios à Almirante Reis.
Eu cri em ti e vi, Lisboa, dares-me o que nunca ninguém deu - um espaço onde pudesse ser puro, onde ser crioulo não fosse duro.