Ponto de Encontro | Cláudia Semedo X Selma Uamusse
Ponto de Encontro

Há lugares que nos ligam ao que somos, às nossas emoções.

Que evocam os valores em que acreditamos e que gostaríamos de ver replicados no mundo.

Há lugares que são casa.

Portugal tem sido porto de muitos atracos. Um puzzle composto pelas trocas, ocupações e cruzamentos de vários povos.

Dos fenícios aos árabes, passando pelos cartaginenses, pelos povos celtas, romanos, germânicos e mouros, Portugal tem no seu ADN a diversidade.

A herança de culturas tão distintas expande as nossas fronteiras e, desejavelmente, os nossos horizontes.

Lisboa tem em si tatuadas todas essas impressões.

Lisboa é tão europeia quanto africana, asiática e, cada vez mais, americana.

Lisboa é Criola e, deste lugar, vamos partir para tantos outros, escolhidos pelos nossos protagonistas, para percebermos os seus contornos.

 

Hoje vou conhecer o lugar Lisboa Criola da mulher, mãe, artista Selma Uamusse.

Marcámos encontro às onze, no Intendente.

 

“Eu escolhi este percurso do Rossio ao Intendente porque, quando eu vim para Portugal em 88, os lugares dos corpos negros eram clarividentes, os lugares onde podíamos ser naturalmente africanos, sem grandes preocupações. O Rossio era o ponto de encontro.”

 

Foi ali que, aos 7 anos, a pequena uamussinha (nome usado pela própria para, carinhosamente, identificar as filhas) encontrou uma das pontes que a ligava a Moçambique.

 

“Era um percurso que eu fazia muito com os meus pais para estar com as pessoas que chegavam, receber as encomendas que vinham da terra, para ir ao Martim Moniz, onde encontrávamos os cabeleireiros, os costureiros que trabalhavam a capulana, os produtos gastronómicos para fazermos comida moçambicana.

Foi o primeiro sítio onde eu, de uma forma muito clara, senti, Ok, this is África, ou, pelo menos, um bocadinho de.”

 

A nossa conversa foi na esplanada d’O das Joanas, um dos espaços deste Intendente renovado, onde diferentes geografias se cruzam, onde Selma se sente em casa e teve algumas conversas decisivas para a construção da sua linguagem musical.

 

“Há uns anos, decidi vir viver para o Intendente. Estava à procura de casa e achava que este podia ser um lugar novo. Havia espaço para perder a fama de lugar de prostituição, de droga, etc..

Quando o António Costa mudou para aqui os escritórios, começou um borbulhar de coisas novas. Eu fiz, de certa forma parte desse processo a nível cultural. Fiz muitas atividades com o largo do Intendente, a festa do Intendente e muitas outras coisas ligadas à inclusão social.

O Intendente assumiu um papel muito importante na cidade, as pessoas começaram a circular por aqui e a viver este espaço, que se tornou uma nova centralidade.

Eu comecei a usar muita roupa de capulana e, no início, eu desenhava a minha roupa e era um costureiro jamaicano que tinha aqui uma loja que a fazia. Chegámos a organizar um desfile no largo, que foi outro momento muito especial da minha vivência neste lugar.

Foi aqui que fiz a minha primeira entrevista sobre o meu projeto a solo.

E também foi aqui que tive uma conversa fundamental para o meu caminho como música com o meu querido Alcides Nascimento, um dos sócios do B’Leza.”

 

Lá chegaremos, antes recuamos no tempo até à altura em que Selma era uma estudante de engenharia e acreditava que o seu contributo para o mundo seria feito através do planeamento urbano, na construção de um novo país.

Formou-se, chegou a trabalhar enquanto investigadora no Instituto Superior Técnico mas a música tocou mais alto.

Mudou de área mas o sonho perdurou.

 

“Quando decidi ser música a tempo inteiro, sabia que queria ter uma mensagem.  Para além de querer chamar a atenção das pessoas para um lugar de não indiferença uns com os outros, eu sabia que a minha moçambicanidade queria vir ao de cima.

Eu queria muito que Moçambique deixasse de ser conhecido pela fome, pela pobreza, pela seca.

Eu sentia uma espécie de responsabilidade em quebrar essa imagem do país dos coitadinhos.”

 

A voz já a tinha, a missão era evidente, descobrir a sua identidade sonora é que foi um desafio.

 

“Queria comunicar da melhor forma possível e poder sempre falar e ser identificada como uma moçambicana que traz as suas línguas nativas, os instrumentos musicais tradicionais, as capulanas nas suas vestes, mas que não deixa de ser uma moçambicana que sempre viveu em Portugal e tem influências do fado, do jazz, do gospel.

O Alcides Nascimento, numa conversa que tivemos neste mesmo espaço, é que me disse: faz com o que és, com o que tens.

Foi preciso desconstruir a ideia de que para mostrar a minha moçambicanidade teria de ser muito tradicional. Eu teria de ser eu mesma e eu não me satisfaço com uma única coisa.”

 

Neste encontro falámos muito sobre música e comunicação.

Selma é uma cantora com uma identidade muito plural que encontrou a sua linguagem nas interceções entre os vários géneros por onde já passou e vai passando.

Cruza universos sem que se sintam saltos dimensionais, antes abre um espaço-tempo onde tudo coabita e surge uma nova linguagem a sua linguagem. É-lhe natural mas não foi uma descoberta imediata.

 

“Criar uma sonoridade para encontrar o meu lugar de fala foi uma construção. Um caminho necessário para chegar ao lugar onde me sinto confortável para ser eu, para falar sobre as minhas crenças, as minhas inquietações. Às vezes acho que estou a usar a música para dizer aquilo que é importante dizer ao mundo neste tempo. Mas adoro cantar. Cantar é a minha forma de estar. É muito ténue a linha que distingue aquilo que eu quero dizer e o quanto eu quero cantar.

No palco sinto uma grande responsabilidade. Fico muito consciente do meu propósito. Falo muito sobre a morte porque quero muito falar sobre a vida. A consciência do fim dá-nos a urgência de viver com qualidade.”

 

Voltando ao lugar que aqui nos trouxe e trazendo para o mesmo espaço a Selma de 1988 e a Selma de 2021, o que diria a mulher à menina.

 

“A Selma de 88 era muito querida, já sabia o que queria mas precisava de aprovação. Com o tempo vamo-nos sentido melhor na nossa pele, pelo menos esse foi o meu processo, fui-me sentindo melhor com quem sou. Diria para ela não procurar tanto satisfazer as outras pessoas. No fim do dia, todos nós falhamos. Passei uma boa parte da minha vida a tentar ser agradável com todos.

Mas também diria para manter a teimosia e a assertividade.”

 

Pelo lugar onde a encontro, diria que a pequena Uamussinha intuiu o recado.

Pelo lugar onde nos encontramos, quis saber como descodifica a ideia de cidade criola.

 

“Esta Lisboa Criola é uma cidade com imensas identidades. Nós somos únicos e individuais, não temos de estar alinhados, nem sequer temos de concordar - mas estar disponíveis e sabermos receber o que há de bom nos outros. Vermos as outras pessoas com admiração. Cada um tem a sua história e tem algo diferente para oferecer.

Eu lembro-me de estar no clube B’Leza, quando era em Santos, e pensar que gostava que a cidade fosse assim.

Era num palacete, o que nos passa a logo a sensação de nobreza, mas um palacete meio decadente, portanto, um lugar onde cabem todas as pessoas. Cheio de espaços com muita luz e outros mais recônditos, meio escuros, há quem queira estar visível, há quem queira estar um pouco mais recolhido. E com pessoas que sentiam uma africanidade à flor da pele, não por serem retornados, africanos ou afrodescendentes, eram só pessoas que sentiam o expoente máximo da sua alegria naquele lugar de encontros. Estavam lá ingleses, portugueses, cabo-verdianos, alemães, como moçambicanos, etc..

Um lugar onde a Música, através da Dança, faz com que os corpos fluam uns nos outros. Há um gozo enorme.

A música toca-nos sem ter de se explicar.”

 

O nosso encontro terminou mas não sem antes haver tempo para uma notícia em primeira mão.

Depois de Mati (àgua) e Liwoningo (Luz), quis saber se esta força da natureza iria continuar a trabalhar os elementos clássicos.

 

“Fogo. Porque precisamos de fogo para agir. É o gatilho do fazer. Go, go. Vai só!”

 

E nós.... vamos!

Ponto de Encontro | Cláudia Semedo X Isabél Zuaa
Expressão
Cláudia Semedo, atriz, apresentadora, licenciada em jornalismo, mestre em empatia. Todos os meses, Cláudia encontra-se com uma pessoa diferente, e de uma conversa apresenta-nos uma partilha.
Ponto de Encontro | Cláudia Semedo X Pedro Mafama
Estética
Cláudia Semedo, atriz, apresentadora, licenciada em jornalismo, mestre em empatia. Todos os meses, Cláudia encontra-se com uma pessoa diferente, e de uma conversa apresenta-nos uma partilha.
Ponto de Encontro | Cláudia Semedo X Luís Levy Lima
Inspiração
Cláudia Semedo, atriz, apresentadora, licenciada em jornalismo, mestre em empatia. Todos os meses, Cláudia encontra-se com uma pessoa diferente, e de uma conversa apresenta-nos uma partilha.